De acordo com Nietzsche, em sua obra Genealogia da Moral, a exaltação moral da qualidade da fraternidade é a expressão de uma "rebelião moral escravista", realizada por aqueles que estão em situação de desvantagem social; seja em razão de suas capacidades materiais, seja em razão da índole de suas oportunidades fixadas pelo destino. Aqueles que saem em defesa da moral fraterna tem ressentimentos contra o estilo de vida do estrato senhorial que vive livre de obrigações.
Em relação a uma certa comunidade, esta assertiva explicaria o por quê da juventude de seus membros: a situação de certa classe de idade que se encontra temporariamente fora de qualquer oportunidade para exercer suas capacidades materiais e do destino, posto que se encontram abaixo de hierarquias e, em seu processo de reflexão de si e do mundo, muitas vezes se dão conta de que nunca poderão alcançar o estilo de vida senhorial, mesmo porque para tanto, seria necessário escravizar outro montante.
A exaltação moral da fraternidade pode ser encontrada em diversas manifestações da communitas, como os hippies artesãos a percorrerem as estradas, os punks de uma outra época nas esquinas sobrevivendo do lixo.
No que diz respeito a referida comunidade, tal assertiva nietzschiana também explicaria a própria construção e existência de seu líder, um jovem seminarista que passa a se auto-construir em prol de uma moral fraterna que em tudo é contrária ao estilo senhorial do qual o mesmo deveria ser parte: um senhorio que se nega a tanto, vestindo seu corpo com trapos e se negando a chinelos, instaura uma contradição na medida em que o faz sem abandonar uma posição social de senhorio, a saber, a do padre. Assim, constitui-se um homem, um religioso, rebelde à Igreja porém ao mesmo tempo fiel à Igreja.
De acordo com Weber, o profeta encontra seu lugar habitual nas classes menos privilegiadas da sociedade, a partir de uma lógica religiosa onde o indivíduo por si passa a buscar, desejar, sua salvação - que quer dizer livrar-se de seus sofrimentos. Este tipo de religiosidade tornou-se um substituto, ou um complemento racional, para a magia. A isto, Max Weber chamará de racionalização. Para Weber, em sua maior parte este processo de racionalização está desligado da teoria nietzschiana do ressentimento, apesar de se tratar de uma transformação da noção de sofrimento. Neste sentido, o surgimento das religiões de salvação está atrelado com as transformações da noção de sofrimento e também à ascensão de um indivíduo, em contrapartida de uma noção comunitária que lhe antecedia. É como se o ressentimento de Nietzsche fosse uma estrutura quase imutável, que funciona feito um cubo mágico que vai brincando em mudar a ordem das cores, mas a forma se mantém; e o que muda são outras coisas que o rodeiam.
Para Weber, o fato de o profeta encontrar seu lugar habitual nas classes menos provilegiadas da sociedade se dá porque em geral, os oprimidos, ou pelo menos aqueles que se vêem acossados pela miséria, têm necessidade de um redentor, um salvador, que muitas vezes aparecerá na figura de um messias (que nunca chega) ou de um profeta (diversos na história). De repente, penso que pode ser um problema classificar a juventude como uma "classe oprimida", ou "sem poderes". Dizer que a juventude não tem poder é complicado. Ainda mais se tratando de uma juventude classe média. Assim, penso ser melhor dizer que estes jovens se direcionam a um empoderamento que se dá via pertença religiosa. Acredito que esta maneira de se ver a situação também é válida para aqueles que Weber classifica de "oprimidos": seja qual for a forma de opressão, hoje em dia o que se vê são indivíduos se empoderando pela via religiosa, e isso incluirá todo o discurso do sofrimento e salvação, e então se empoderam mediados por um redentor que os salva, conferindo-lhes todo tipo de poder - que pode se manifestar em dons,no caso dos carismáticos, ou em bens materiais, no caso dos protestantes, por exemplo. Um bom exemplo para pensar é uma mulher classe média, mas que não manda em nada na casa ou no dinheiro, devido a uma posição feminina, e vai encontrar uma forma de se empoderar através de uma liderança carismática. Desse ponto de vista, a coisa fica mais prá Joel Robbins.
No caso da comunidade analisada, a grande questão será a das vias de seu empoderamento. Isto porque jogam com um modo de adquirir poder que está para além de uma espera do messias para sanar seus sofrimentos. Buscam se aproximar do sagrado a partir de toda uma gama de renúncias, como a castidade, a renúncia a todos os bens materiais e à família, o jejum, a restrição ao sono e até mesmo o sofrimento, infligido deliberadamente mediante a mortificação, como ficar de joelhos por três horas diárias, dormir no chão. Conforme nos ensinou Max Weber, este conjunto de práticas constituem uma ascese para a aquisição dos valores sagrados mais estimados,chamados, pelo autor, de "carismas".
Max Weber já alertara que a aquisição dos valores sagrados supremos, como os êxtases, os transes, as visões, as experiências místicas contemplativas, as inspirações, etc., nunca foi universal, para as massas. Historicamente, estes estados psíquicos não tem sido as constantes da vida cotidiana. Para Weber, o processo de racionalização configurou como dogma de que os homens estão diversamente qualificados no sentido religioso, o que quer dizer que nem todos podiam ascender ao nirvana,ou a união contemplativa com a divindade, ou a possessão orgiástica ou ascética de Deus.
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terça-feira, 18 de maio de 2010
Haxixe: o sagrado marginal

(Naga Sadhu, belíssima fotografia de Joshi Daniel.)
" O haxixe era conhecido em todas as terras árabes, mas para uma seita religiosa, o sufismo, ele se tornou parte da própria religião, mais ou menos como o bangue e a ganja entre os hindus. Os sufis - assim chamados porque vestiam lã (suf) como penitência - divergiam dos demais mulçumanos em sua crença de que a iluminação espiritual não podia se ensinada ou recolhida através de percepção racional, mas somente em estados alterados de consciência. O uso do haxixe era um dos métodos para se atingir esse estado de transe. Por causa do haxixe, de sua conduta ascética, e porque provinham sobretudo das classe inferiores, os sufis eram repudiados pelos outros árabes. Ainda assim, eles fortaleciam o vículo entre o haxixe e a espiritualidades árabe, um vínculo que perdura até nossos dias (...) em 1253 as ruas do Cairo estavam cheias de sufis e, conseqüentemente, de haxixe. O cânhamo crescia por todo o Cafour, um jardim no centro da cidade. As autoridades concluíram que a situação estava fora de controle, e todas as plantas de cânhamo foram destruída numa imensa fogueira visível a milhas de distância (...) Muitos povos do norte da África fumam Kif, que transportam num mottoni (bolsa) com duas ou quatro divisões. Cada compartimento contém kif de uma potência diferente, que é oferecido aos convidados segundo o grau de respeito ou de amizade (...) (Págs. 70/71 do "Grande Livro da Cannabis, de Rowan Robinson)
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terça-feira, 11 de maio de 2010
Abstinência e Santidade
"Múltiples formas de penitencia, y de abstinencia de un régimen alimenticio y un
sueño normales, así como de relaciones sexuales, excitan, o por lo
menos propician, el carisma de estados de éxtasis, visionarios, histéricos y, en suma, de todos los estados extraordinarios valorados como "santos". Su producción constituye, pues, la finalidad del ascetismo mágico. El prestigio de estas penitencias se origina en la idea de que determinadas clases de sufrimiento y estados anormales promovidos por la penitencia preparan la consecución de poderes sobrehumanos,es decir, mágicos. En igual sentido han obrado las antiguas prescripciones de tabúes y abstinencias en beneficio de una pureza del culto,
originadas en la creencia en demonios." - MAX WEBER, Sociología de la Religión
sueño normales, así como de relaciones sexuales, excitan, o por lo
menos propician, el carisma de estados de éxtasis, visionarios, histéricos y, en suma, de todos los estados extraordinarios valorados como "santos". Su producción constituye, pues, la finalidad del ascetismo mágico. El prestigio de estas penitencias se origina en la idea de que determinadas clases de sufrimiento y estados anormales promovidos por la penitencia preparan la consecución de poderes sobrehumanos,es decir, mágicos. En igual sentido han obrado las antiguas prescripciones de tabúes y abstinencias en beneficio de una pureza del culto,
originadas en la creencia en demonios." - MAX WEBER, Sociología de la Religión
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domingo, 2 de maio de 2010
Anarquia Ontológica e Revolução do Caos Místico
"True mysticism creates (...) a self with power."- Hakim Bey, The temporary autonomous zone, Onthological Anarchy, Poetic Terrorism, 1985.
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quinta-feira, 22 de abril de 2010
Michel Foucault, História da Loucura
"A Igreja não aplica sanções contra um sacerdote que se torna insano; mas em Nuremberg, em 1421, um padre louco é expulso com uma particular solenidade, como se a impureza se acentuasse pelo caráter sacro da personagem, e a cidade retira de seu orçamento o dinheiro que devia servir-lhe de viático." (FOUCAULT, p. 11, Ed. Perspectiva 2004)
A nau dos loucos (Sultifera Navis, Narrenschiff), ou sobre confiar os loucos aos marinheiros:

A Sultifera Navis de Hieronimus Bosch. Quem são esses religiosos? Comporiam, também, a tripulação de loucos? Bosch se inspirou na sátira Das Narrenschiff (1494), de Sebastian Brant, para formular este quadro. Sobre Bosch, ver também MILLER, Henry, "Big Sur and the oranges of Hieronimus Bosch".
"Esta navegação do louco é simultaneamente a divisão rigorosa e a Passagem absoluta. Num certo sentido, ela não faz mais que devolver, ao longo de uma geografia semi-real, semi-imaginária, a situaçào liminar do louco no horizonte das preocupações do homem medieval - situação simbólica e realizada ao mesmo tempo pelo privilégio que se dá ao louco de ser fechado às portas da cidade: sua exclusão deve encerrá-lo; se ele não pode nem deve ter outra prisão que o próprio limiar, seguram-no no lugar de passagem, Ele é colocado no interior do exterior, e inversamente. Postura altamente simbólica, e que permanecerá sem dúvida a sua até nossos dias, se admitirmos que aquilo que outrora foi fortaleza visível da ordem tornou-se agora castelo da nossa consciência. (...) É o Passageiro por excelência, isto é, o prisioneiro da passagem. E a terra a qual aportará não é conhecida, assim como não se sabe, quando desembarca, de que terra vem. Sua única verdade e sua única pátria são essa extensão estéril entre duas terras que não lhe podem pertencer. (...) Uma coisa pelo menos é certa: a água e a loucura estarão ligadas por muito tempo no sonho do homem europeu." (FOUCAULT, p. 12, Ed. Perspectiva 2004)
A navegação dos loucos, marcante em toda a Idade Média, só vêm à tona nas iconografias e na literatura bruscamente no século XV, pois a nau "simboliza toda uma inquietude, soerguida subitamente no horizonte da cultura européia, por volta do fim da Idade Média. A loucura e o louco tornam-se personagens maiores em sua ambiguidade: ameaça e irrisão, vertiginoso desatino do mundo e medíocre ridículo dos homens." (FOUCAULT, p. 14, Ed. Perspectiva 2004)
A loucura e o fim do mundo: um animal espreita o homem

Pintura de Grunewald, A Tentação de Santo Antônio. Temos aqui o santo ermitão assolado por um completo arsenal de monstros infernais. Pintura rica em implicações sobre o fantástico, o drama do duplo, as alucinações ou estados alterados de consciência como tragédia, quando relacionados aos dramas do demônio e da culpa.
"... agora a sabedoria consistirá em denunciar a loucura por toda parte, em ensinar aos homens que eles não são mais que mortos (...) (FOUCAULT, p.16).
Somos covardes, mesquinhos e indolentes
velhos, cobiçosos e maldizentes,
Vejo apenas loucas e loucos
O fim se aproxima em verdade.
Tudo vai mal (EUSTACHE DESCHAMPS, citado por Foucault, p. 16)
"Agora, os elementos inverteram-se. Não é mais o fim dos tempos e do mundo que mostrará retrospectivamente que os homens eram uns loucos por não se preocuparem com isso; é a ascensão da loucura, sua surda invasão, que indica que o mundo está próximo de sua derradeira catástrofe, é a demência dos homens que a invoca e a torna necessária." (FOUCAULT, p. 17)
"No pensamento da Idade Média, as legiões de animais, batizados definitivamente por Adão, ostentavam simbolicamente os valores da humanidade. Mas no começo da Renascença, as relações com a animalidade se invertem: a besta se liberta, escapa do mundo da fábula e da ilustração moral a fim de adquirir um fantástico que lhe é próprio. E, por uma surpreendente inversão, é o animal, agora, que vai espreitar o homem, apoderar-se dele e revelar-lhe sua própria verdade. (...) A animalidade escapou à domesticação pelos valores e pelos símbolos humanos; e se ela agora fascina o homem com sua desordem, seu furor, sua riqueza de monstruosas impossibilidades,é ela quem desvenda a raiva obscura, a loucura estéril que reside no coração dos homens." (FOUCAULT, p. 18)
A simbolização da loucura traz consigo os animais enquanto bestas perigosas e impuras: traz consigo a verdadeira desordem de um fim catastrófico do mundo, no entrecruzamento de sentidos, ou excesso de sentidos sobre as coisas. Este século XV, da passagem entre uma Idade Média e a Idade Moderna, vivencia deveras a Passagem: é o Satã quem vai ser recuperado, e quem vai espreitar os homens em sua locuura e animalidade, que os habita internamente. "Trata-se de um perigo mudo, de uma alteridade que provém "do outro mundo", mas que invade esse como que saindo das entranhas da própria terra. E o sábio, diante dessa alteridade, se inclina, fascinado por esse murmúrio que pode revelar a própria verdade do homem." (segundo um texto de Catatau)
A tragédia da loucura e o nascimento do sujeito
O século XVII, com Descartes, vê o advento da ratio (razão). Com e para a ratio, o século XVII criou diversas casas de internação, inventou o hospital para loucos e solidificou a idéia de que o louco deveria ser internado. “A não-razão do século XVI constituía uma espécie de ameaça aberta cujos perigos podiam sempre, pelo menos de direito, comprometer as relações da subjetividade e da verdade.” (FOUCAULT, p. 47). O inevitável cortejo da razão precisa da loucura como sua alteridade, como sua régua de medida. “Sob controle, a loucura mantém todas as aparências de seu império. Doravante, ela faz parte das medidas da razão e do trabalho da verdade.” (FOUCAULT, p. 43)
Para talhar este sujeito racional, será preciso todo um suporte moral, cosmológico e espacial: a subsistência, a boa conduta, a ordem geral. Mas a loucura continuará sempre à espreita, junto com outros sinônimos seus, os pobres, doentes, miseráveis; todos eles se opondo simbolicamente a esta ordem (e coerencia) esterilizada que se quer instituir. “(...) preocupação burguesa de pôr em ordem o mundo da miséria; o desejo de ajudar e a necessidade de reprimir; o dever de caridade e a vontade de punir; toda uma prática equívoca cujo sentido é necessário isolar, sentido simbolizado sem dúvida por esses leprosários, vazios desde a Renascença mas repentinamente reativados no século XVII e que foram rearmados com obscuros poderes. O Classicismo inventou o internamento, um pouco como a Idade Média a segregação dos leprosos (...)” (p. 53). A miséria (e sinônimos vadiagem, insanidade, má conduta) se insere numa relação entre a ordem e a desordem, passando de uma experiência religiosa que santifica para uma concepção moral que a condena. Toda essa coerencia implantada sob a ótica da ordem acontece junto ao processo da Reforma Protestante, que traz consigo a cosmologia capitalista de que trabalhar é bom e faz você ir para o céu. Desse modo, cria-se uma sensibilidade que inventa um policiamento para impedir a mendicância e a ociosidade, bem como as fontes de todas as desordens. A miséria e a mendicância é assim despida de todo seu sentido místico e sagrado – este sagrado impuro – e a partir de então, este tema não será mais tão claro, posto que se enviezaram mística e moral (uma moral que sustenta todo um sistema econômico).
A nau dos loucos (Sultifera Navis, Narrenschiff), ou sobre confiar os loucos aos marinheiros:

A Sultifera Navis de Hieronimus Bosch. Quem são esses religiosos? Comporiam, também, a tripulação de loucos? Bosch se inspirou na sátira Das Narrenschiff (1494), de Sebastian Brant, para formular este quadro. Sobre Bosch, ver também MILLER, Henry, "Big Sur and the oranges of Hieronimus Bosch".
"Esta navegação do louco é simultaneamente a divisão rigorosa e a Passagem absoluta. Num certo sentido, ela não faz mais que devolver, ao longo de uma geografia semi-real, semi-imaginária, a situaçào liminar do louco no horizonte das preocupações do homem medieval - situação simbólica e realizada ao mesmo tempo pelo privilégio que se dá ao louco de ser fechado às portas da cidade: sua exclusão deve encerrá-lo; se ele não pode nem deve ter outra prisão que o próprio limiar, seguram-no no lugar de passagem, Ele é colocado no interior do exterior, e inversamente. Postura altamente simbólica, e que permanecerá sem dúvida a sua até nossos dias, se admitirmos que aquilo que outrora foi fortaleza visível da ordem tornou-se agora castelo da nossa consciência. (...) É o Passageiro por excelência, isto é, o prisioneiro da passagem. E a terra a qual aportará não é conhecida, assim como não se sabe, quando desembarca, de que terra vem. Sua única verdade e sua única pátria são essa extensão estéril entre duas terras que não lhe podem pertencer. (...) Uma coisa pelo menos é certa: a água e a loucura estarão ligadas por muito tempo no sonho do homem europeu." (FOUCAULT, p. 12, Ed. Perspectiva 2004)
A navegação dos loucos, marcante em toda a Idade Média, só vêm à tona nas iconografias e na literatura bruscamente no século XV, pois a nau "simboliza toda uma inquietude, soerguida subitamente no horizonte da cultura européia, por volta do fim da Idade Média. A loucura e o louco tornam-se personagens maiores em sua ambiguidade: ameaça e irrisão, vertiginoso desatino do mundo e medíocre ridículo dos homens." (FOUCAULT, p. 14, Ed. Perspectiva 2004)
A loucura e o fim do mundo: um animal espreita o homem

Pintura de Grunewald, A Tentação de Santo Antônio. Temos aqui o santo ermitão assolado por um completo arsenal de monstros infernais. Pintura rica em implicações sobre o fantástico, o drama do duplo, as alucinações ou estados alterados de consciência como tragédia, quando relacionados aos dramas do demônio e da culpa.
"... agora a sabedoria consistirá em denunciar a loucura por toda parte, em ensinar aos homens que eles não são mais que mortos (...) (FOUCAULT, p.16).
Somos covardes, mesquinhos e indolentes
velhos, cobiçosos e maldizentes,
Vejo apenas loucas e loucos
O fim se aproxima em verdade.
Tudo vai mal (EUSTACHE DESCHAMPS, citado por Foucault, p. 16)
"Agora, os elementos inverteram-se. Não é mais o fim dos tempos e do mundo que mostrará retrospectivamente que os homens eram uns loucos por não se preocuparem com isso; é a ascensão da loucura, sua surda invasão, que indica que o mundo está próximo de sua derradeira catástrofe, é a demência dos homens que a invoca e a torna necessária." (FOUCAULT, p. 17)
"No pensamento da Idade Média, as legiões de animais, batizados definitivamente por Adão, ostentavam simbolicamente os valores da humanidade. Mas no começo da Renascença, as relações com a animalidade se invertem: a besta se liberta, escapa do mundo da fábula e da ilustração moral a fim de adquirir um fantástico que lhe é próprio. E, por uma surpreendente inversão, é o animal, agora, que vai espreitar o homem, apoderar-se dele e revelar-lhe sua própria verdade. (...) A animalidade escapou à domesticação pelos valores e pelos símbolos humanos; e se ela agora fascina o homem com sua desordem, seu furor, sua riqueza de monstruosas impossibilidades,é ela quem desvenda a raiva obscura, a loucura estéril que reside no coração dos homens." (FOUCAULT, p. 18)
A simbolização da loucura traz consigo os animais enquanto bestas perigosas e impuras: traz consigo a verdadeira desordem de um fim catastrófico do mundo, no entrecruzamento de sentidos, ou excesso de sentidos sobre as coisas. Este século XV, da passagem entre uma Idade Média e a Idade Moderna, vivencia deveras a Passagem: é o Satã quem vai ser recuperado, e quem vai espreitar os homens em sua locuura e animalidade, que os habita internamente. "Trata-se de um perigo mudo, de uma alteridade que provém "do outro mundo", mas que invade esse como que saindo das entranhas da própria terra. E o sábio, diante dessa alteridade, se inclina, fascinado por esse murmúrio que pode revelar a própria verdade do homem." (segundo um texto de Catatau)
A tragédia da loucura e o nascimento do sujeito
O século XVII, com Descartes, vê o advento da ratio (razão). Com e para a ratio, o século XVII criou diversas casas de internação, inventou o hospital para loucos e solidificou a idéia de que o louco deveria ser internado. “A não-razão do século XVI constituía uma espécie de ameaça aberta cujos perigos podiam sempre, pelo menos de direito, comprometer as relações da subjetividade e da verdade.” (FOUCAULT, p. 47). O inevitável cortejo da razão precisa da loucura como sua alteridade, como sua régua de medida. “Sob controle, a loucura mantém todas as aparências de seu império. Doravante, ela faz parte das medidas da razão e do trabalho da verdade.” (FOUCAULT, p. 43)
Para talhar este sujeito racional, será preciso todo um suporte moral, cosmológico e espacial: a subsistência, a boa conduta, a ordem geral. Mas a loucura continuará sempre à espreita, junto com outros sinônimos seus, os pobres, doentes, miseráveis; todos eles se opondo simbolicamente a esta ordem (e coerencia) esterilizada que se quer instituir. “(...) preocupação burguesa de pôr em ordem o mundo da miséria; o desejo de ajudar e a necessidade de reprimir; o dever de caridade e a vontade de punir; toda uma prática equívoca cujo sentido é necessário isolar, sentido simbolizado sem dúvida por esses leprosários, vazios desde a Renascença mas repentinamente reativados no século XVII e que foram rearmados com obscuros poderes. O Classicismo inventou o internamento, um pouco como a Idade Média a segregação dos leprosos (...)” (p. 53). A miséria (e sinônimos vadiagem, insanidade, má conduta) se insere numa relação entre a ordem e a desordem, passando de uma experiência religiosa que santifica para uma concepção moral que a condena. Toda essa coerencia implantada sob a ótica da ordem acontece junto ao processo da Reforma Protestante, que traz consigo a cosmologia capitalista de que trabalhar é bom e faz você ir para o céu. Desse modo, cria-se uma sensibilidade que inventa um policiamento para impedir a mendicância e a ociosidade, bem como as fontes de todas as desordens. A miséria e a mendicância é assim despida de todo seu sentido místico e sagrado – este sagrado impuro – e a partir de então, este tema não será mais tão claro, posto que se enviezaram mística e moral (uma moral que sustenta todo um sistema econômico).
sexta-feira, 12 de março de 2010
Paris, Cidade Invisível
Livro virtual genial de Bruno Latour.
Aqui consigo perceber muito melhor o que é sociologizar como uma formiga.
Seu caminhar pela cidade desvela os territórios e desterritórios de que somos e fazemos parte, pondo em xeque a todo o momento as divisões classificatórias entre indivíduo (pessoa) e sociedade (ou seja lá o que for isso).
Acesse-o aqui
Aqui consigo perceber muito melhor o que é sociologizar como uma formiga.
Seu caminhar pela cidade desvela os territórios e desterritórios de que somos e fazemos parte, pondo em xeque a todo o momento as divisões classificatórias entre indivíduo (pessoa) e sociedade (ou seja lá o que for isso).
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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Sub-caos
"- Desisti, sub-subs! Pois, quanto maiores sejam os vossos esforços para agradar ao mundo, tanto mais ficareis para sempre sem agradecimento!"
Melville, Moby Dick.
"Eu vo-lo digo: é preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante."
Nietzsche, Assim falava Zaratustra.
Melville, Moby Dick.
"Eu vo-lo digo: é preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante."
Nietzsche, Assim falava Zaratustra.
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Georges Bataille

Livro: História do Olho.
Belíssima capa de edição que desconheço. Bem diferente da edição brasileira, pela Cosac Naify, onde temos uma fotografia de capa de uma bunda coberta por duas mãos. Aqui, temos o leite escorrendo pelas pernas da garota que segura ovos em suas mãos, as quais ao contrário de esconder, estão aqui para oferecer. Primazia ilustrativa do romance.
terça-feira, 26 de maio de 2009
Ser afetada. Être Affecté.
“[...] ocupar tal lugar no sistema de feitiçaria não me informa nada sobre os afetos do outro; ocupar tal lugar afeta-me, quer dizer, mobiliza e modifica meu próprio estoque de imagens, sem contudo instruir-me sobre aqueles dos meus parceiros”. (FAVRET-SAADA, 2005, p. 159)
“Na verdade, eles exigiam de mim que eu experimentasse pessoalmente por minha própria conta – não por aquela da ciência – os efeitos reais dessa rede particular de comunicação humana em que consiste a feitiçaria. Dito de outra forma: eles queriam que aceitasse entrar nisso como parceira e que ali investisse os problemas da minha existência de então”.(FAVRET-SAADA, 2005, p.157)
"ter um diário muito circunstanciado dos eventos: durante o período do trabalho de campo, esta é uma assistência essencial, que permite suportar a experiência de despossessão de si (o primeiro momento lógico), e de se comportar menos estupidamente com as pessoas; após o período de campo, este é um documento precioso sobre o qual a análise poderá se apoia. [...] Este diário não é um espaço de recreação pessoal [...]: ele é uma ferramenta de trabalho, a inscrição de uma experiência [...], e seu assunto é a exploração de um sistema de lugares por um sujeito qualquer, o etnólogo, no caso”. (FAVRET-SAADA, 2004)
(FAVRET-SAADA, “Ser Afetado” – trad. Paula Siqueira. In: Cadernos de Campo, nº13. São Paulo: FFLCH/USP, 2005, p.155-161. p.159)
“Ser afetado” é um experienciar das mesmas forças que atravessam os nativos: não uma representação delas." - Ricardo Martins Freire.
“Na verdade, eles exigiam de mim que eu experimentasse pessoalmente por minha própria conta – não por aquela da ciência – os efeitos reais dessa rede particular de comunicação humana em que consiste a feitiçaria. Dito de outra forma: eles queriam que aceitasse entrar nisso como parceira e que ali investisse os problemas da minha existência de então”.(FAVRET-SAADA, 2005, p.157)
"ter um diário muito circunstanciado dos eventos: durante o período do trabalho de campo, esta é uma assistência essencial, que permite suportar a experiência de despossessão de si (o primeiro momento lógico), e de se comportar menos estupidamente com as pessoas; após o período de campo, este é um documento precioso sobre o qual a análise poderá se apoia. [...] Este diário não é um espaço de recreação pessoal [...]: ele é uma ferramenta de trabalho, a inscrição de uma experiência [...], e seu assunto é a exploração de um sistema de lugares por um sujeito qualquer, o etnólogo, no caso”. (FAVRET-SAADA, 2004)
(FAVRET-SAADA, “Ser Afetado” – trad. Paula Siqueira. In: Cadernos de Campo, nº13. São Paulo: FFLCH/USP, 2005, p.155-161. p.159)
“Ser afetado” é um experienciar das mesmas forças que atravessam os nativos: não uma representação delas." - Ricardo Martins Freire.
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